25/08/2025
Revisado em: 25/08/2025
Entenda a função do TSH no diagnóstico de problemas da tireoide e a relação desse hormônio com o câncer na glândula.
Ao receber seus resultados de exames de sangue, você pode se deparar com a sigla TSH e se perguntar sobre sua importância. O Hormônio Estimulante da Tireoide (TSH) é produzido pela hipófise, uma pequena glândula localizada no cérebro. Seu principal papel é regular a função da tireoide, uma glândula em formato de borboleta situada na base do pescoço.
A tireoide, por sua vez, produz hormônios (T3 e T4) que são cruciais para o metabolismo do corpo, impactando desde a energia e o peso até a temperatura corporal e o humor.
Quando os níveis de T3 e T4 estão baixos, a hipófise aumenta a produção de TSH para "estimular" a tireoide a trabalhar mais. Inversamente, se T3 e T4 estão altos, o TSH diminui para "frear" a produção.
Os valores de referência do TSH podem variar ligeiramente entre laboratórios, mas geralmente situam-se entre 0,4 e 4,0 mU/L para adultos. Qualquer alteração fora dessa faixa indica que a tireoide pode não estar funcionando como deveria, sugerindo condições como hipotireoidismo (TSH alto) ou hipertireoidismo (TSH baixo).
É fundamental esclarecer que o exame de TSH, por si só, não detecta o câncer de tireoide. Ele é um excelente indicador da função tireoidiana, mostrando se a glândula produz hormônios adequadamente.
A maioria dos cânceres de tireoide não causa alterações significativas nos níveis de TSH, T3 ou T4, especialmente nas fases iniciais. Inclusive, cerca de 50% dos casos são descobertos por acaso em pacientes assintomáticos, muitos deles sendo pequenos carcinomas papilíferos da tireoide (CPT).
Estudos de autópsia revelam que pequenos CPTs estão presentes em cerca de 10% das pessoas que morrem por outras causas. Essa frequência se mantém estável desde os anos 1970, sugerindo que muitos desses cânceres são indolentes e não causariam problemas ao longo da vida.
A relação entre o TSH e o câncer de tireoide é mais complexa do que uma simples indicação direta. Ela se dá principalmente na presença de nódulos tireoidianos, que são muito comuns na população e, em sua maioria (cerca de 90-95%), são benignos.
No entanto, a chance de um nódulo ser maligno pode ser levemente maior em pacientes com TSH elevado, especialmente se os níveis ultrapassarem 10 mU/L.
Nesses casos, o TSH alto indica que a tireoide está sendo muito estimulada, o que, teoricamente, poderia favorecer o crescimento de células, incluindo as malignas. Por isso, um TSH muito elevado em conjunto com a presença de nódulos leva à necessidade de uma investigação mais cuidadosa, como a ultrassonografia de tireoide.
Estudos indicam que níveis elevados de TSH podem estimular a proliferação de células tireoidianas, aumentando o risco de metástase em linfonodos e invasão de tecidos próximos.
Por isso, em pacientes com câncer de tireoide diferenciado (CTD), a supressão do TSH após a cirurgia é uma estratégia comum para reduzir o risco de recorrência. No entanto, essa supressão deve ser cuidadosa, pois níveis muito baixos de TSH podem levar a efeitos adversos, como osteoporose, especialmente em mulheres na pós-menopausa.
Para casos de baixo risco que passaram por tireoidectomia total, a supressão de TSH não melhora o prognóstico. Já para pacientes de alto risco, a supressão é recomendada para prevenir metástases ou recorrências.
Contudo, suprimir o TSH a níveis indetectáveis não traz benefícios adicionais e pode causar efeitos colaterais.
Em contraste, quando o TSH está baixo, a condição mais comum é o hipertireoidismo. Embora seja menos frequente, nódulos com TSH baixo (hiperfuncionantes) raramente são malignos, mas ainda assim exigem avaliação clínica.
Dado que o TSH não é um marcador direto para o câncer de tireoide, outros exames são cruciais para um diagnóstico preciso. A investigação normalmente segue estes passos:
A ultrassonografia pode sugerir se um nódulo é benigno ou suspeito. Características suspeitas na ultrassonografia, como microcalcificações, vascularização desorganizada, margens irregulares ou formato mais alto do que largo, podem indicar a necessidade de biópsia.
A PAAF é o único exame capaz de confirmar a presença de células cancerígenas na tireoide, sendo fundamental para o diagnóstico definitivo. É importante notar que entre 15% e 25% das PAAFs resultam em achados não diagnósticos, indeterminados ou suspeitos. Desses, cerca de 30% podem, de fato, ser malignos.
Nesses casos, testes moleculares, que analisam mutações genéticas, tornam-se valiosos para refinar o diagnóstico e a estratificação de risco, especialmente para nódulos classificados como Bethesda III ou IV.
Anticorpos antitireoidianos não são usados para diagnosticar câncer, mas podem indicar doenças autoimunes da tireoide. A tireoglobulina é um marcador tumoral importante para carcinomas diferenciados da tireoide, especialmente após a remoção total da glândula. Seus níveis devem ser indetectáveis após uma cirurgia curativa.
Se a tireoglobulina começar a subir com o tempo, isso pode indicar recorrência do câncer, mesmo que não haja sinais visíveis em exames de imagem. Em pacientes com anticorpos antitireoglobulina (TgAb) positivos, o valor da tireoglobulina como marcador é reduzido, sendo necessário monitorar ambos.
Além dos exames tradicionais, a pesquisa avança na identificação de novos biomarcadores. MicroRNAs (miRNAs), por exemplo, são pequenas moléculas que podem ser detectadas no sangue e indicam alterações celulares.
O miR-146b tem se mostrado promissor como biomarcador para o carcinoma papilífero da tireoide (CPT), enquanto o miR-375 é um potencial marcador prognóstico para o carcinoma medular da tireoide (CMT).
Para o CMT, a calcitonina (Ct) e o antígeno carcinoembrionário (CEA) são marcadores essenciais. Níveis elevados de calcitonina são uma característica primária do CMT, e sua medição é crucial para o diagnóstico e monitoramento pós-operatório.
O CEA, embora não seja específico para o CMT isoladamente, aumenta significativamente a sensibilidade diagnóstica quando usado em conjunto com a calcitonina.
Ficar atento aos sinais do corpo é muito importante. Embora muitas vezes o câncer de tireoide seja descoberto por acaso durante exames de rotina, alguns sintomas podem ser indicativos e merecem atenção médica:
É importante notar que, além dos sintomas físicos, mais da metade dos pacientes com câncer de tireoide avançado podem apresentar distúrbios do sono, fadiga e sofrimento emocional. Cerca de 30% também relatam sintomas de ansiedade e depressão, reforçando a importância de uma abordagem integral no cuidado.
Se você notar algum desses sintomas, procure um médico para uma avaliação. Um diagnóstico precoce aumenta significativamente as chances de sucesso no tratamento.
O diagnóstico de câncer de tireoide pode gerar muitas dúvidas e preocupações. Felizmente, a maioria dos tipos de câncer de tireoide tem um excelente prognóstico, especialmente quando detectados precocemente. O carcinoma papilífero da tireoide (CPT), por exemplo, que é o tipo mais comum, tem uma taxa de cura que pode chegar a 100%, independentemente da idade do paciente.
O acompanhamento deve ser feito por especialistas, como um endocrinologista ou um cirurgião de cabeça e pescoço. O tratamento principal para a maioria dos cânceres de tireoide é a cirurgia, que pode ser seguida de terapia com iodo radioativo em casos específicos, para eliminar células tireoidianas residuais.
Para casos de carcinoma papilífero da tireoide (CPT) de muito baixo risco em adultos, a vigilância ativa é uma opção recomendada. Estudos mostram que a taxa de progressão é muito baixa e que o prognóstico não difere da cirurgia imediata.
Além disso, a vigilância ativa apresenta menos efeitos adversos e custos médicos significativamente menores, sendo 4,1 vezes mais barata em 10 anos, segundo um estudo japonês.
A lobectomia, que remove apenas uma parte da tireoide, é recomendada para CPT de baixo risco limitado a um lobo. Para o carcinoma folicular da tireoide (CFT) minimamente invasivo e o carcinoma medular da tireoide (CMT) esporádico unilateral, a lobectomia também é uma opção.
Nesses casos, não há evidências de que a tireoidectomia total (remoção completa) ofereça melhor sobrevida ou menor recorrência. A escolha da cirurgia depende de fatores como o tipo e tamanho do tumor, e a presença de metástases.
A terapia com iodo radioativo (RAI) é mais benéfica para pacientes de alto risco, como aqueles com metástases ou tumores agressivos.
Para pacientes com câncer diferenciado da tireoide sem metástases distantes, a preparação com TSH recombinante humano (rhTSH) para a terapia adjuvante com RAI é recomendada. No entanto, em casos de metástases distantes, a preparação com rhTSH deve ser evitada.
É importante saber que entre 33% e 50% dos pacientes com câncer de tireoide podem desenvolver resistência à terapia com RAI ao longo do tempo, o que pode levar a um pior prognóstico.
Para o carcinoma pouco diferenciado da tireoide (CPDT), a terapia com RAI pode ser oferecida, inclusive para metástases distantes, dependendo do órgão afetado e da situação específica. Doses mais altas de RAI estão associadas a maior incidência de efeitos adversos.
Para formas mais avançadas ou agressivas de câncer de tireoide, como o carcinoma anaplásico da tireoide (CAT), que é raro, mas altamente letal, os tratamentos têm evoluído.
Terapias neoadjuvantes, como inibidores de BRAF/MEK para casos com mutação BRAF V600E, são recomendadas antes da cirurgia. Essas terapias podem tornar tumores inicialmente inoperáveis passíveis de ressecção e melhorar significativamente as taxas de sobrevida.
Dados recentes mostram uma melhora notável na sobrevida do CAT. Em um centro de referência, a taxa de sobrevida em um ano para pacientes tratados entre 2017 e 2019 foi de 59%, e em dois anos, de 42%. Isso representa um avanço significativo em comparação com os 35% e 18% observados entre 2000 e 2013, respectivamente, refletindo o impacto das novas terapias.
É crucial seguir todas as orientações médicas e realizar o acompanhamento regular para monitorar a função tireoidiana e detectar qualquer sinal de recorrência. A informação e o cuidado contínuo são seus maiores aliados na jornada de saúde da tireoide.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. Em caso de dúvidas, procure um especialista habilitado.
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