25/08/2025
Revisado em: 25/08/2025
Viver em um ciclo de infecções urinárias pode ser desgastante e frustrante; entenda por que isso acontece e quais atitudes podem ajudar a quebrar essa repetição.
Aquele ciclo de ardência e urgência para urinar que parece não ter fim define a infecção urinária constante. Longe de ser falta de higiene, essa repetição desgastante tem causas que precisam ser entendidas. Saber o que está por trás do problema é o primeiro passo para buscar o tratamento correto e quebrar o ciclo.
Viver em um ciclo de infecções urinárias com crises que vão e voltam é uma situação desgastante que exige uma investigação cuidadosa para entender a causa. Para a medicina, esse quadro é conhecido como Infecção do Trato Urinário (ITU) de repetição.
Embora a infecção urinária constante seja muito mais comum em mulheres, ela também pode afetar os homens. Porém, sua definição varia. De acordo com a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), para as mulheres, a condição é definida pela frequência: a ocorrência de duas infecções em seis meses ou três ao longo de um ano.
Já para os homens, por ser um evento menos frequente, a ocorrência de uma segunda infecção já é considerada um sinal de alerta que justifica uma investigação mais aprofundada para buscar uma causa anatômica ou prostática.
Na maioria dos casos, essas crises são reinfecções (novos episódios causados por uma nova bactéria) e não uma falha do tratamento anterior. Por essa razão, a confirmação de cada episódio com um exame de cultura de urina (urocultura) é essencial, pois ele comprova a infecção, identifica o agente causador e guia a escolha do antibiótico correto.
Na maioria das vezes, a culpada pela reinfecção é a bactéria Escherichia coli (E. coli), que vive naturalmente em nosso intestino. Devido à uretra mais curta e próxima ao ânus, a anatomia feminina facilita a migração dessa bactéria do intestino para o trato urinário.
Além do fator anatômico, outras condições podem favorecer a infecção urinária constante. Por exemplo, após a menopausa a queda do estrogênio altera a flora vaginal e o pH da região, diminuindo os lactobacilos, que são nossas bactérias de defesa naturais. Essa mudança no ecossistema local facilita a proliferação da E.coli.
A vida sexual também pode influenciar. A atividade sexual pode facilitar a entrada de bactérias na uretra, um quadro conhecido como "cistite de lua de mel". Da mesma forma, a saúde intestinal tem um papel importante: a constipação pode aumentar a quantidade de bactérias na região perineal, elevando o risco de contaminação.
Um fator que explica muitas recorrências é a capacidade que algumas bactérias têm de formar "biofilmes". Pense neles como uma fortaleza ou um escudo que as bactérias constroem na parede da bexiga.
Protegidas dentro do biofilme, elas sobrevivem ao sistema imunológico e aos antibióticos, podendo se reativar periodicamente e causar novas crises, o que ajuda a explicar por que os sintomas podem retornar mesmo após um tratamento aparentemente bem-sucedido.
A prevenção da infecção urinária constante se baseia em atitudes simples, mas que têm um grande impacto na saúde do trato urinário. O primeiro e mais importante hábito é aumentar a ingestão de líquidos, especialmente água.
Beber bastante líquido aumenta a produção de urina, o que funciona como uma "lavagem" constante da bexiga, ajudando a expulsar as bactérias antes que elas consigam se multiplicar e se fixar na parede do órgão.
Os cuidados com a higiene íntima também são essenciais. A orientação é sempre realizar a higiene da frente para trás, para evitar que as bactérias da região anal sejam levadas para perto da uretra. O uso de duchas vaginais e de produtos com perfume deve ser evitado, pois eles podem alterar a flora de proteção natural da vagina.
A vida sexual exige uma atenção especial. É fortemente recomendado urinar logo após a relação sexual. Esse ato simples ajuda a eliminar mecanicamente as bactérias que podem ter sido introduzidas na uretra durante o ato, diminuindo o risco de uma crise.
Por fim, a saúde intestinal tem um papel direto na prevenção. Como a principal bactéria causadora das infecções vive no intestino, manter um trânsito intestinal regular, por meio de uma dieta rica em fibras, evita a constipação e a proliferação excessiva dessas bactérias na região perineal, de forma a reduzir a chance de contaminação.
A alimentação pode ser uma aliada na prevenção das infecções urinárias recorrentes. Apesar de nenhum alimento isolado substitua o tratamento médico, escolhas alimentares adequadas ajudam a fortalecer as defesas do organismo e a criar um ambiente menos propício à proliferação bacteriana.
Um dos alimentos mais estudados nesse contexto é o cranberry (Vaccinium macrocarpon), especialmente em forma de suco concentrado ou cápsulas, já que o fruto in natura é pouco acessível no Brasil. Uma revisão sistemática recente da Cochrane, que analisou 50 estudos clínicos randomizados, concluiu que produtos à base de cranberry (como suco, cápsulas ou comprimidos) reduzem o risco de infecções do trato urinário em mulheres com ITU recorrente, em crianças e em indivíduos suscetíveis após intervenções clínicas.
Esses efeitos são atribuídos principalmente às proantocianidinas (PACs) de tipo A presentes no cranberry, que atuam inibindo a adesão da Escherichia coli à mucosa da bexiga, uma das etapas iniciais no desenvolvimento da infecção.
Ainda que promissor, a eficácia pode variar conforme a dosagem de PACs, a duração do uso e características individuais. E vale repetir: cranberry não trata infecções já instaladas, mas pode colaborar na prevenção em alguns perfis de pacientes.
Alimentos ricos em probióticos, como iogurte natural e kefir, também favorecem o equilíbrio da microbiota intestinal e vaginal, contribuindo para inibir o crescimento exagerado da E. coli e de outras bactérias indesejadas.
Outra estratégia é a ingestão adequada de vitamina C, presente em frutas como acerola, laranja e kiwi. Ela ajuda a fortalecer o sistema imunológico e pode acidificar a urina, tornando o ambiente menos hospitaleiro para as bactérias.
Por fim, a hidratação regular e abundante é a parte mais importante. Beber bastante água favorece a eliminação de bactérias pela urina antes que consigam se fixar e causar infecção.
Quando as crises de infecção urinária constante persistem, mesmo com a adoção de todos os hábitos preventivos, é sinal de que pode haver uma causa subjacente que precisa ser investigada. Nesse momento, o médico pode indicar uma avaliação mais aprofundada do trato urinário.
O objetivo é descartar se existe alguma alteração anatômica ou funcional que esteja facilitando as infecções. Para isso, o primeiro passo costuma ser um exame de imagem, como a ultrassonografia dos rins e da bexiga, para verificar se há a presença de pedras ou outras anomalias estruturais.
Dependendo do caso, outros exames podem ser necessários. Por exemplo, aurodinâmica avalia o funcionamento da bexiga, verificando se ela se esvazia completamente. Já a cistoscopia é um exame que permite visualizar o interior da bexiga com uma microcâmera, em busca de inflamações crônicas ou outras alterações.
Essa investigação mais completa é o que permite identificar e tratar a raiz do problema, de forma a oferecer a melhor chance de quebrar o ciclo de recorrência e devolver a qualidade de vida ao paciente.
Referências bibliográficas:
SOCIEDADE BRASILEIRA DE UROLOGIA (SBU). Infecção Urinária de Repetição. São Paulo: SBU, [s.d.]. Disponível em: https://sbu-sp.org.br/publico/infeccao-urinaria-de-repeticao/. Acesso em: 15 ago. 2025.
Williams, G.; Stothart, C. I.; Hahn, D.; Stephens, J. H.; Craig, J. C.; Hodson, E. M. Cranberries for preventing urinary tract infections. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2023, n. 11, Art. no. CD001321. DOI: 10.1002/14651858.CD001321.pub7. Disponível em: https://www.cochrane.org/evidence/CD001321_cranberries-preventing-urinary-tract-infections. Acesso em: 15 ago. 2025.
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