Efeitos colaterais da cannabis: veja riscos, cuidados e diferenças de tipos
Entenda os impactos da substância no corpo e na mente e saiba quando o uso, mesmo medicinal, exige atenção especializada.
Resumo
Os efeitos colaterais da cannabis dividem-se em agudos (imediatos) e crônicos (de longo prazo), afetando cognição e corpo.
Efeitos imediatos comuns incluem boca seca, taquicardia, ansiedade e prejuízo na coordenação motora.
O uso contínuo, principalmente na adolescência, está associado a riscos para a memória, atenção e saúde mental, além de maior risco de dependência se combinado com sedativos.
O THC é o principal responsável pelos efeitos psicoativos e psicóticos, enquanto o CBD, embora mais seguro, pode causar sonolência e interações medicamentosas.
O consumo de maconha também pode prejudicar a saúde cardiovascular, com riscos de inflamação e formação de coágulos.
Acompanhamento médico é fundamental para minimizar riscos e interações medicamentosas, especialmente para grupos vulneráveis como gestantes e portadores de doenças preexistentes.
Seja por indicação médica para tratar uma condição específica ou pela discussão sobre seu uso recreativo, o tema cannabis está cada vez mais presente. Com isso, surgem dúvidas importantes sobre os seus reais impactos no organismo. Afinal, quais são os efeitos colaterais e como eles se manifestam?
Compreender essas reações é o primeiro passo para um uso consciente e seguro, diferenciando os benefícios terapêuticos dos riscos associados ao abuso ou ao uso sem orientação profissional. Mesmo quando o uso é medicinal, a cannabis pode afetar temporariamente o sistema nervoso e psiquiátrico, sublinhando a importância do acompanhamento profissional.
Psiquiatras são os especialistas indicados para esse tipo de acompanhamento. A Rede Américas conta com médicos renomados atendendo em vários hospitais brasileiros.
Quais são os efeitos imediatos mais comuns da cannabis?
Logo após o consumo, a cannabis provoca uma série de reações que variam conforme a dose, a via de administração e a sensibilidade individual. Esses efeitos agudos geralmente duram algumas horas e podem ser divididos em psicológicos e físicos.
Alterações psicológicas e de percepção
O tetraidrocanabinol (THC), principal composto psicoativo da planta, age diretamente no sistema nervoso central. Isso pode resultar em:
Euforia e relaxamento: sensação inicial de bem-estar e calma.
Ansiedade ou paranoia: em alguns indivíduos, especialmente iniciantes ou com doses altas, o efeito pode ser oposto, gerando angústia e desconfiança.
Percepção alterada: cores, sons e o próprio tempo podem parecer diferentes.
Prejuízo da memória de curto prazo: dificuldade em reter novas informações durante o período do efeito.
Dificuldade de concentração: manter o foco em uma tarefa pode se tornar um desafio.
Reações físicas no organismo
O corpo também responde à presença dos canabinoides. As reações físicas mais frequentes são:
Boca seca (xerostomia): uma das queixas mais relatadas.
Aumento da frequência cardíaca (taquicardia): o coração pode bater mais rápido nos primeiros minutos ou horas.
Olhos vermelhos: ocorre devido à dilatação dos vasos sanguíneos oculares.
Tontura e redução da coordenação motora: o equilíbrio e o tempo de reação ficam comprometidos, tornando perigoso dirigir ou operar máquinas.
Aumento do apetite: conhecido popularmente como "larica".
Quando o uso de cannabis se torna crônico e frequente, especialmente com produtos de alto teor de THC, os riscos mudam de perfil e podem se tornar mais sérios e duradouros.
Impacto na saúde cognitiva
O cérebro, principalmente aquele em desenvolvimento, é vulnerável aos efeitos crônicos da cannabis. Estudos indicam que o uso pesado e iniciado na adolescência pode estar associado a dificuldades persistentes de memória, atenção e funções executivas — a capacidade de planejar e executar tarefas. De fato, estudos (2023) observam que o uso de cannabis pode afetar a memória.
Riscos para a saúde mental
Para pessoas com predisposição, o uso contínuo de cannabis pode ser um gatilho para transtornos mentais. Há evidências que o associam a um risco aumentado de desenvolvimento de psicoses, como a esquizofrenia (2020). Além disso, pode agravar quadros de ansiedade e depressão em alguns usuários e levar ao desenvolvimento de dependência.
Estudos indicam que o uso de cannabis pode afetar a saúde mental de diversas formas, sendo um fator a ser considerado por profissionais de saúde. Ainda, o uso de cannabis, especialmente em conjunto com outras substâncias como sedativos, pode acelerar e agravar o desenvolvimento da dependência, principalmente em usuários jovens.
Consequências para a saúde física
A forma de consumo influencia diretamente os riscos físicos. Fumar cannabis, por exemplo, expõe o sistema respiratório a muitas das mesmas toxinas do tabaco, podendo levar a bronquite crônica e outros problemas pulmonares. Há também preocupações sobre a saúde cardiovascular, dado que a substância pode afetar a pressão arterial e a frequência cardíaca.
Estudos (2019) apontam que o consumo de maconha pode causar danos graves ao coração e aos vasos sanguíneos. Isso inclui inflamação das artérias e um aumento no risco de formação de coágulos, fatores que podem comprometer seriamente a saúde cardiovascular.
Existe diferença entre os efeitos colaterais do THC e do CBD?
O THC e o canabidiol (CBD) são os dois canabinoides mais conhecidos, mas seus efeitos são muito distintos. Enquanto o THC é o principal responsável pela psicoatividade ("chapado"), o CBD não possui esse efeito.
A tabela abaixo resume as principais diferenças em relação aos efeitos adversos:
Efeito Colateral
Principalmente associado ao THC
Principalmente associado ao CBD
Psicoatividade / Euforia
Sim
Não
Ansiedade / Paranoia
Sim (especialmente em altas doses)
Raro (pode ter efeito contrário)
Prejuízo cognitivo agudo
Sim
Mínimo ou inexistente
Sonolência / Sedação
Sim
Sim (especialmente em altas doses)
Diarreia / Alterações de apetite
Aumento de apetite
Pode ocorrer, incluindo redução de apetite
Interações medicamentosas
Sim (pode ser significativo, especialmente com medicamentos para depressão e dor)
Sim (pode ser significativo, especialmente com medicamentos para depressão e dor)
Lesão hepática
Raro
Risco em altas doses, monitoramento é necessário
Embora o CBD possa causar sonolência em doses elevadas, a pesquisa tem explorado combinações específicas, como a de CBD com beta-cariofileno, que demonstram aliviar a dor sem os efeitos colaterais motores típicos, como tontura ou perda de equilíbrio.
Quem precisa ter mais cuidado com o uso de cannabis?
Alguns grupos são considerados mais vulneráveis aos efeitos adversos e devem evitar o uso ou fazê-lo sob rigorosa supervisão médica:
Adolescentes: o cérebro em desenvolvimento é mais suscetível aos impactos negativos na cognição e saúde mental. Em jovens, a combinação de cannabis com sedativos é particularmente perigosa. Apesar da busca por euforia, essa prática eleva significativamente o risco de dependência e pode levar a reações fatais.
Gestantes e lactantes: os canabinoides podem atravessar a placenta e passar para o leite materno, afetando o desenvolvimento do bebê.
Pessoas com histórico pessoal ou familiar de psicose: o risco de desencadear um surto psicótico é maior nesse grupo.
Indivíduos com doenças cardíacas: devido ao efeito na frequência cardíaca e pressão arterial.
Pacientes que usam outros medicamentos: a cannabis pode interagir com diversos fármacos, alterando sua eficácia ou segurança. A mistura de cannabis com medicamentos para depressão ou dor, por exemplo, pode gerar efeitos colaterais graves.
Como minimizar os riscos e os efeitos adversos?
Para pacientes que utilizam a cannabis medicinal, a chave é a orientação profissional. O médico saberá indicar o produto com a proporção adequada de CBD e THC, começar com doses baixas e aumentá-las gradualmente, monitorando as reações.
Este acompanhamento é necessário para gerenciar os riscos e evitar interações negativas com outros medicamentos.
De forma geral, algumas práticas ajudam a reduzir riscos:
Prefira produtos com maior teor de CBD e menor de THC.
Evite o consumo concomitante com álcool ou outras substâncias psicoativas.
Jamais dirija ou realize tarefas que exijam atenção após o uso.
Esteja em um ambiente seguro e confortável, especialmente nas primeiras vezes.
Quando devo procurar ajuda médica?
É fundamental buscar avaliação médica se você ou alguém próximo apresentar reações adversas intensas ou preocupantes após o uso de cannabis.
Fique atento a sinais como:
Ataques de pânico ou ansiedade severa que não passam.
Pensamentos paranoicos ou alucinações.
Dor no peito ou palpitações cardíacas intensas.
Vômitos incontroláveis (pode ser um sinal da rara síndrome de hiperêmese canabinoide).
Sinais de dependência, como a incapacidade de reduzir ou parar o uso apesar das consequências negativas.
O diálogo aberto com um profissional de saúde é o caminho mais seguro para entender a relação entre a cannabis e o seu organismo, seja para fins terapêuticos ou para sanar dúvidas sobre seus riscos.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. Em caso de dúvidas, procure um especialista habilitado.
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