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É possível detectar o câncer pelo hemograma completo? 

Entenda o que o exame de sangue mais comum pode revelar sobre a sua saúde e por que ele sozinho não é suficiente para diagnosticar o câncer.

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Você acabou de fazer seu check-up anual, e o médico solicitou uma bateria de exames, incluindo o famoso hemograma completo. É natural que, ao pegar o resultado, surjam dúvidas e até uma certa ansiedade, especialmente se você ou alguém da sua família tem histórico de câncer. Afinal, o hemograma, um dos exames mais comuns, consegue "ver" se há um câncer no corpo?

O que é o hemograma completo e o que ele revela?

O hemograma completo é um exame de sangue rotineiro que fornece um panorama detalhado sobre as células presentes no seu sangue. Ele avalia três tipos principais de células: os glóbulos vermelhos (eritrócitos), os glóbulos brancos (leucócitos) e as plaquetas.

Cada um desses componentes desempenha funções vitais no organismo. Os glóbulos vermelhos transportam oxigênio, os glóbulos brancos combatem infecções e as plaquetas atuam na coagulação do sangue. 

A avaliação da quantidade e das características dessas células pode indicar diversas condições de saúde, desde anemias e infecções até processos inflamatórios.

Componentes do hemograma: glóbulos brancos, vermelhos e plaquetas

O hemograma fornece contagens e informações sobre:

  • Glóbulos Vermelhos (Eritrócitos/Hemácias): indicam a capacidade do sangue de transportar oxigênio. Anemia (baixa contagem) ou policitemia (alta contagem) podem ser detectadas.
  • Glóbulos Brancos (Leucócitos): essenciais para o sistema imunológico. As variações podem sinalizar infecções, inflamações ou doenças que afetam a medula óssea.
  • Plaquetas: responsáveis pela coagulação sanguínea. Alterações na contagem (trombocitopenia ou trombocitose) podem afetar a capacidade de cicatrização e coagulação.

A importância de cada marcador reside na sua capacidade de refletir o estado geral da saúde e levantar bandeiras vermelhas para investigações mais aprofundadas.

O hemograma pode diagnosticar câncer diretamente?

A resposta direta é: não, o hemograma completo por si só não é capaz de diagnosticar o câncer na maioria dos casos. 

Ele não consegue identificar tumores sólidos nem diferenciar as causas das alterações celulares com precisão suficiente para um diagnóstico definitivo. Contudo, suas alterações podem ser um sinal de alerta.

Por que o hemograma não é um teste de diagnóstico definitivo para todos os cânceres?

O hemograma reflete a saúde do sangue, mas a maioria dos cânceres se origina em órgãos específicos (como mama, pulmão, cólon) e não diretamente no sangue. Nesses casos, o tumor pode não alterar o hemograma de forma detectável até um estágio mais avançado, ou as alterações são inespecíficas. 

Por exemplo, a maioria dos parâmetros do hemograma completo pode permanecer dentro da faixa de referência normal mesmo em casos de câncer colorretal. Isso pode dificultar a detecção precoce apenas por esse exame.

Quais anomalias podem levantar suspeita?

Embora não seja diagnóstico, o hemograma pode apresentar certas alterações que levantam a suspeita de uma condição oncológica. É importante notar que essas alterações não são exclusivas do câncer e podem ser causadas por outras doenças.

As principais anomalias que podem gerar essa suspeita incluem:

  • Anemia inexplicável: uma baixa contagem de glóbulos vermelhos sem causa aparente, como deficiência de ferro ou sangramento. Em alguns cânceres, como os gastrointestinais, a anemia pode ser um sinal de sangramento oculto. Para o câncer colorretal, por exemplo, níveis de hemoglobina abaixo de 13 g/dL são um critério estabelecido para encaminhamento para investigação adicional. 
  • Leucocitose (aumento de glóbulos brancos) ou leucopenia (diminuição de glóbulos brancos): um número muito elevado ou muito baixo de leucócitos pode indicar uma disfunção na medula óssea ou uma resposta inflamatória atípica do corpo.
  • Trombocitose (aumento de plaquetas) ou trombocitopenia (diminuição de plaquetas): alterações nas plaquetas podem, em alguns casos, estar relacionadas a síndromes mieloproliferativas ou outros cânceres. 
  • Presença de células anormais: a identificação de células imaturas ou atípicas que normalmente não circulam no sangue.

Esses achados são indicativos da necessidade de investigação adicional, mas nunca são um diagnóstico final.

Cânceres que podem impactar o hemograma: quais são?

Certos tipos de câncer têm um impacto mais direto e visível nos resultados do hemograma, pois afetam diretamente a medula óssea, responsável pela produção das células sanguíneas.

Cânceres hematológicos: leucemia, linfoma e mieloma

Para os cânceres hematológicos, ou seja, aqueles que se originam na medula óssea ou nas células do sangue e da linfa, o hemograma é uma ferramenta essencial e muito mais relevante. Exemplos incluem:

  • Leucemias: Caracterizadas pela produção descontrolada de glóbulos brancos anormais na medula óssea. O hemograma pode mostrar um número extremamente alto ou baixo de leucócitos, além da presença de blastos (células imaturas) no sangue. No entanto, é importante saber que alguns tipos de leucemia, como a leucemia linfoblástica aguda de células B reordenada por UBTF-ATXN7L3, podem apresentar contagens de glóbulos brancos normais no momento do diagnóstico. Isso mostra que o hemograma nem sempre é suficiente para a detecção.
  • Linfomas: Afetam o sistema linfático. Embora o hemograma não seja o principal exame diagnóstico, ele pode, em alguns casos, indicar alterações indiretas, como anemia ou contagens anormais de glóbulos brancos.
  • Mieloma Múltiplo: Um câncer de células plasmáticas na medula óssea. Pode causar anemia, aumento de proteínas no sangue (que impactam a viscosidade) e disfunção renal, refletindo-se em alguns parâmetros do hemograma.

Nesses casos, as alterações são mais específicas e direcionam a investigação para um diagnóstico hematológico.

Cânceres sólidos: como eles afetam o sangue indiretamente?

Para a maioria dos cânceres sólidos (como câncer de mama, pulmão, cólon, próstata), o hemograma geralmente não apresenta alterações diretas ou específicas nos estágios iniciais. No entanto, em estágios mais avançados, ou devido a complicações do câncer, ele pode mostrar sinais indiretos, como:

  • Anemia de doença crônica: Uma baixa contagem de glóbulos vermelhos que não responde à suplementação de ferro.
  • Aumento de plaquetas (trombocitose): Alguns tumores podem estimular a produção de plaquetas.
  • Alterações nos glóbulos brancos: Podem ocorrer devido a infecções relacionadas ao câncer ou ao tratamento, ou mesmo como uma resposta inflamatória sistêmica.

Esses achados, quando presentes, reforçam a necessidade de investigação, mas sempre em conjunto com outros exames.

Qual o papel do hemograma na jornada diagnóstica?

O hemograma completo é uma peça importante, mas não a única, no quebra-cabeça do diagnóstico oncológico. Seu papel é mais de triagem e acompanhamento.

O hemograma como triagem e acompanhamento

Como exame de triagem, o hemograma pode identificar anormalidades que justificam uma investigação mais aprofundada. 

No contexto de acompanhamento, em pacientes já diagnosticados com câncer, ele é crucial para monitorar a saúde geral, avaliar a resposta ao tratamento (quimioterapia ou radioterapia podem afetar a medula óssea) e detectar possíveis complicações ou recaídas.

Quando o médico solicita exames complementares?

Diante de um hemograma alterado, especialmente com achados que sugerem um problema mais sério, o médico solicitará exames complementares para confirmar ou descartar a suspeita de câncer. Essa investigação pode incluir exames de imagem, marcadores tumorais e, mais importante, a biópsia.

Quais exames são realmente usados para detectar o câncer?

O diagnóstico definitivo do câncer depende de uma série de exames específicos, que vão além do hemograma e são escolhidos de acordo com o tipo de câncer suspeito e a área do corpo afetada.

Biópsia: o padrão ouro

A biópsia é considerada o "padrão ouro" para o diagnóstico de câncer. Nela, uma pequena amostra de tecido suspeito é removida do corpo e examinada por um patologista sob um microscópio. 

Somente a análise histopatológica (das células e tecidos) pode confirmar a presença de células cancerosas, seu tipo e grau.

Exames de imagem: tomografia, ressonância, PET scan

Exames de imagem fornecem visões detalhadas do interior do corpo, ajudando a localizar tumores, determinar seu tamanho, extensão e se houve disseminação.

  • Tomografia Computadorizada (TC): Usa raios-X para criar imagens transversais do corpo.
  • Ressonância Magnética (RM): Utiliza campos magnéticos e ondas de rádio para produzir imagens detalhadas de tecidos moles.
  • PET Scan (Tomografia por Emissão de Pósitrons): Ajuda a identificar áreas de alta atividade metabólica, características de células cancerosas.

Marcadores tumorais no sangue: o que são e para que servem?

Marcadores tumorais são substâncias (geralmente proteínas) produzidas por células cancerosas ou pelo corpo em resposta ao câncer. Eles podem ser detectados no sangue, urina ou tecidos. 

Exemplos incluem:

  • PSA (Antígeno Prostático Específico): para câncer de próstata.
  • CEA (Antígeno Carcinoembrionário): pode ser elevado em cânceres de cólon, pulmão, mama, entre outros.
  • CA 125: associado ao câncer de ovário.
  • AFP (Alfafetoproteína): indicativo de câncer de fígado ou tumores germinativos.

É crucial entender que marcadores tumorais também podem estar elevados em condições não cancerosas, por isso não são usados como único meio de diagnóstico, mas sim como ferramenta auxiliar no rastreamento, monitoramento e avaliação do tratamento.

Testes genéticos e moleculares

Em alguns casos, testes genéticos e moleculares são realizados para identificar mutações específicas em genes associados ao câncer. 

Esses testes podem ajudar a determinar o risco de desenvolver certos tipos de câncer, guiar o tratamento (terapias-alvo) e monitorar a resposta à doença.

Quando procurar um médico para investigar?

A detecção precoce do câncer é fundamental para o sucesso do tratamento. Conhecer os sinais de alerta e realizar exames de rotina é essencial.

Sinais de alerta gerais para o câncer

Procure um médico se notar:

  • Alterações persistentes no hábito intestinal ou urinário.
  • Ferida que não cicatriza.
  • Sangramentos ou secreções anormais.
  • Nódulos ou caroços em qualquer parte do corpo.
  • Dificuldade para engolir ou rouquidão persistente.
  • Tosse ou rouquidão que não melhora.
  • Mudanças em verrugas ou pintas.
  • Perda de peso inexplicável.
  • Fadiga extrema sem causa aparente.

Esses sintomas podem ser de câncer ou de outras condições, mas exigem avaliação médica.

A importância da consulta e avaliação profissional

Sempre discuta os resultados dos seus exames, incluindo o hemograma, com seu médico. Ele é o profissional capacitado para interpretar os dados no contexto da sua saúde geral, histórico familiar e outros sintomas. 

Somente um especialista pode solicitar os exames complementares necessários e chegar a um diagnóstico preciso. A automedicação ou a autoinvestigação baseada em informações da internet podem ser perigosas e atrasar um diagnóstico crucial.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. Em caso de dúvidas, procure um especialista habilitado.

Bibliografia

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